Joana leu: Memória de minhas putas tristes, de Gabriel Garcia Marquez

Memória de minhas putas tristes Gabriel Garcia Marquez Editora Record 127 páginas "No ano de meus noventa anos quis me dar...

Memória de minhas putas tristes
Gabriel Garcia Marquez
Editora Record
127 páginas
"No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Casablancas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com sorriso maligno, você vai ver."

Essa citação feita na contracapa do livro não poderia resumir melhor essa história de amor e perdas, que fala sobre o sentimento que pode nos abater no final da vida, aquela sensação de não ter feito nada direito, ou de não ter realizado nossos sonhos.

Um jornalista que está para fazer 90 anos de idade é o narrador da história, que nos leva a uma reflexão profunda sobre os valores das coisas, mas principalmente, o valor da vida. Ele escreve crônicas sem graça para um jornal da cidade, e dá aulas de gramática para alguns jovens. Nunca se casou, e nunca se apaixonou por nenhuma das mulheres com quem se envolveu sexualmente, sempre prostitutas. Mora na mesma casa desde sempre, sozinho, e tem apenas uma empregada doméstica, que cuida de suas coisas.

Quando ele começa a sentir que sua vida está chegando ao fim, ele resolve se dar de presente uma noite com uma virgem, como a dona do bordel sempre lhe oferecia, mas que ele sempre recusava. Rosa Casablancas encontra uma jovem para ele e tudo fica acertado. 

Ao chegar no quarto, ele se depara com uma jovem belíssima, nua, porém num sono profundo. Então o jornalista decide não acordá-la, já que ele acredita que já não seria capaz de fazer sexo, devido a sua idade avançada, e passa a noite inteira admirando seu corpo nu e sua juventude. Ao amanhecer, ele volta para casa, deixando a quantia combinada com a cafetina.

Mas qual não foi a surpresa do nosso narrador ao descobrir que a jovem se sentiu rejeitada por ele, e queria devolver o dinheiro, por não ter realizado o trabalho contratado. Ele então marca novamente com ela, no mesmo lugar, para concretizar o ato sexual, e, mais uma vez, a encontra dormindo. Ele repete o que fizera na noite anterior, mas aproveita para falar com a moça enquanto ela dorme.

Assim, noite após noite, ele vai ao encontro dela, ela continua dormindo, e ele vai se apegando cada vez mais àquela bela jovem, que lhe faz companhia e ouve suas lamentações, ainda que esteja sempre dormindo. O velho passa a decorar o quarto, mobiliá-lo, enfeitá-lo e tenta deixá-lo bonito, imaginando que a menina iria gostar e se sentir mais a vontade quando estivesse acordada. A questão é que ele nunca encontra com ela desperta, sempre sai do quarto enquanto ela ainda está dormindo, mas se sente feliz e realizado assim.

Depois de muitas noites em claro ao lado da garota, ele se dá conta de que, enfim, está apaixonado por alguém, justo agora, quando está dando adeus aos prazeres da vida, e pensa que morrerá a qualquer momento. Em meio a essa descoberta, surge o conflito entre viver essa paixão plenamente ou apenas esperar a  morte. O escritor já não consegue ficar longe da sua jovem misteriosa, e decide ir atrás de seu amor.

O mais importante nesse livro é a reflexão do protagonista acerca da morte, suas conclusões sobre a velhice, e a conclusão de que ele não viveu a vida da forma como gostaria de ter vivido.

Garcia Marquez escreve de forma encantadora; ele conduz a narrativa com a destreza de um cirurgião, usando da mesma técnica que Saramago para a construção dos parágrafos, sem uma pontuação que indique o início dos diálogos ou dos pensamentos do jornalista, mas durante a leitura isso fica muito claro, definido pelo ritmo de sua escrita.

É impossível ler esse livro e não fazer um balanço da própria vida, analisar nossas atitudes e pensar em como será nosso futuro. Para quem, como eu, não gostaria de envelhecer, é uma boa oportunidade para rever seus conceitos e descobrir que a idade é apenas uma medida de tempo, e não um relógio que determina como devemos agir, ou o que devemos fazer com nossos dias, nossos sonhos e nossos amores.

Joana Masen
@joana_masen

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