Não queremos o dia 8 de março

Simone de Beauvoir começa O Segundo Sexo, um das obras feministas mais importantes, dizendo que demorou muito pra escrever um livro sob...

Simone de Beauvoir começa O Segundo Sexo, um das obras feministas mais importantes, dizendo que demorou muito pra escrever um livro sobre mulheres. Ela pontua alguns motivos pra isso, e um deles é, basicamente, porque ser mulher é difícil e falar disso é irritante. Isso foi em 1949, e até hoje é um assunto chato. E acho que é por isso que nós também nunca falamos muito sobre o dia da mulher aqui no P!. A verdade é que preferíamos que esse dia não existisse, porque isso significaria que não precisaríamos lembrar que não vivemos em uma sociedade justa. O dia 8 de março não é uma data pra falarmos das maravilhas de ser mulher (embora tenha suas maravilhas), nem de se sentir homenageada pelas propagandas que incentivam os homens a nos comprarem presentes, flores e chocolates, porque não é isso que o dia 8 de março significa.
Trecho inicial de "O Segundo Sexo"

Aliás, você sabe por que o dia 8 de março foi escolhido como dia internacional da mulher? Uma das razões pode ter sido por um fato que aconteceu em 1857, em que um grupo de 129 tecelãs de Nova York decidiu fazer uma greve pra diminuir a jornada de trabalho de 12 horas para 10 horas, entre outras mínimas reivindicações. A repressão policial foi grande, pra não dizer devastadora, em que elas tiveram que se refugiarem dentro do barracão em que trabalhavam. Pra completar, os donos da fábrica junto com os policiais as trancaram lá dentro e atearam fogo, matando todas as grevistas. É por isso que o dia 8 de março é o dia internacional da mulher.

Geralmente, nessa época do ano, as campanhas e propagandas em comemoração ao dia da mulher nos mostra colorindo o mundo, como mulheres bonitas, bem sucedidas e que estão muito felizes. Mas e se você não quiser ser essa mulher? Se você não quiser ser essa mulher que está sempre em dia com o salão e com a academia? O que a sociedade tem a te oferecer se você quiser ser uma mulher diferente do esperado? Se você quiser ser gay? Gorda? Se você detestar maquiagem? Se não quiser se depilar? Fazer as unhas? Se não souber da última tendência de Paris? Se não quisermos ter um relacionamento com uma pessoa só, mas com várias? E se quisermos ser o que as pessoas não querem? 

Pois é, em 2014 ainda vivemos na sociedade que quer nos separar entre mulheres “pra pegar” e mulheres pra casar. Em que a responsabilidade da criação dos filhos é sempre da mãe. Em que se você sofrer algum tipo de assédio sexual é porque sua roupa estava curta de mais. Aonde mulheres sofrem violência doméstica de seus parceiros todos os dias. No lugar onde é aceitável escutar grosserias de cunho sexual na rua, vindo de estranhos, e isso ainda ser considerado elogio. Em que pagamos menos na balada pra atrair homem pra festa. Que acha que mulher só gosta de futebol pra se “amostrar”. Em que mulher é a responsável pelas tarefas domésticas, mesmo trabalhando fora há décadas. Na sociedade que ainda quer decidir aonde é o “lugar de mulher”. 

Aliás, você sabe aonde é lugar de mulher? Isso mesmo, aonde ela quiser. É por isso também que aqui no blog falamos muito pouco sobre tendência, mesmo sendo um blog de moda. E também porque achamos que é muito chato todo ser igual, se vestir igual, se portar igual. Acreditamos que cada um tem sua personalidade, sua maneira de se vestir e seus gostos pessoais. 

No dia em que nenhuma dessas coisas acontecerem e milhares de outras coisas, o dia 8 de março não precisará mais existir. E é por isso que não queremos mais esse dia.

Pronto, usei!
@prontousei

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