Joana leu: A mais pura verdade, de Dan Gemeinhart

A mais pura verdade Dan Gemeinhart editora Novo Conceito 224 páginas "Em todos os sentidos que interessam, Mark é uma cri...

A mais pura verdade
Dan Gemeinhart
editora Novo Conceito
224 páginas
"Em todos os sentidos que interessam, Mark é uma criança normal. Ele tem um cachorro chamado Beau e uma grande amiga, Jessie. Ele gosta de fotografar e de escrever haicais em seu caderno. Seu sonho é um dia escalar uma montanha. Mas, em certo sentido, um sentido muito importante, Mark não tem nada a ver com as outras crianças. Mark está doente. O tipo de doença que tem a ver com hospital. Tratamento. O tipo de doença da qual algumas pessoas nunca melhoram. Então, Mark foge. Ele sai de casa com sua máquina fotográfica, seu caderno, seu cachorro e um plano. Um plano para alcançar o topo do Monte Rainier. Nem que seja a última coisa que ele faça."

Quando a Novo Conceito me enviou a degustação desse livro, eu fiquei decepcionada por ter terminado aquelas poucas páginas sem saber o que ia acontecer com Mark, e de tanta ansiedade para descobrir o final da sua aventura, nem esperei eles me mandarem o livro completo, fui na loja e comprei. E valeu a pena.

Mark é um menino que tinha uma vida como a de qualquer criança, até que foi diagnosticado com câncer. A notícia abalou a família e sua melhor amiga Jessie, que ele conhece desde sempre, e com quem compartilha tudo. Então, entre os longos tratamentos no hospital, a perda dos cabelos e alguns períodos de melhora na doença, ele se interessa em conhecer o Monte Reinier, que seu avô vivia dizendo que um dia iria escalar.

Além da montanha, ele gosta de fotografia, também influenciado pelo avô, e de escrever haicais. Ele tem uma máquina fotográfica antiga, daquelas de filme, que pertenceu ao avô, e um caderno onde escreve seus haicais.



Mark está triste por causa da doença, se sentindo culpado por fazer os pais sofrerem, e com medo de morrer. Então, ele decide encarar logo a morte e acabar com tudo de uma vez. Para isso, ele planeja escalar, sozinho, o Monte Reinier. Sabendo que ninguém vai deixá-lo ir, ele foge, levando consigo apenas o necessário para completar a aventura: a câmera, o caderno, dinheiro, algum suprimento em barras de cereal, cordas, e seu cachorro, Beau.

Durante o trajeto, ele passa por situações muito complicadas, que o desafiam a continuar: desde sentir muita dor de cabeça e vomitar por causa do efeito dos remédios até ser assaltado na rua e ficar sem nenhum dinheiro para continuar a viagem. Mas mesmo assim ele segue em frente, e durante seu trajeto até a montanha acompanhamos sua reflexão sobre a vida.

Se por um lado torcemos para ele consiga chegar ao seu objetivo, por outro temos medo de que ele chegue lá e não consiga sobreviver - o que seria uma morte muito triste. Também sofremos com a angústia dos pais de Mark, por não saber onde o filho está, e com o drama de Jessie, que sabe que o maior sonho do amigo é chegar ao Reinier, mas também tem consciência de que isso poderá matá-lo. E como se não fosse o suficiente, ela não consegue decidir se o melhor a fazer é avisar os pais de Mark que sabe para onde ele está indo, ou se deve apenas esperar que o pior aconteça.

Essa poderia ser apenas mais uma estória de uma criança com câncer, mas o autor conseguiu tirar o foco da doença e chamar nossa atenção para os sentimentos de Mark: aos poucos ele vai percebendo tudo que está deixando para trás, e, em alguns momentos, chega a avaliar se vale mesmo a pena viajar para os braços da morte certa. O livro é sobre algo muito maior que uma doença, é sobre vida.

Um ponto alto da narrativa é a relação de Mark com Beau. O cachorro é totalmente fiel ao amigo, assim como acontece na realidade, e está sempre ao seu lado, para o que der e vier. Enfrenta a fome e o frio, mas não o abandona, e muitas vezes é a presença de Beau que permite que Mark continue sua caminhada.

Outra coisa que chamou minha atenção foi a disposição dos capítulos, que se revezam entre a narrativa de Mark a caminho da montanha e da agonia das pessoas que ficaram para trás, sem notícias suas - mãe, pai e amiga. Gosto dessa fórmula, que mistura momentos diferentes da estória, e mostram dois lados da mesma situação, narrados por personagens diferentes: além de permitir que o leitor veja os acontecimentos por ângulos diferentes, também faz com que ele se atenha mais ao que lê, tendo que parar numa determinada cena, entrar em outra, e depois retomar aquela que ficou para trás. Isso exige atenção do leitor, e deixa a leitura mais interessante.

Há momentos muito tensos na viagem de Mark até a montanha, e em determinadas situações eu cheguei a acreditar que seria o fim. Mas mesmo com algum sofrimento, a leitura é agradável, e bastante simples. A certa altura comecei a pensar que tudo aquilo é impossível de acontecer, que nenhuma criança jamais faria o que Mark fez, fugindo de casa assim, deixando os pais tão aflitos, mas depois me lembrei de que se trata de uma ficção, e que em ficção tudo é possível.

Esse é um livro sobre o valor das pequenas coisas da vida, dos momentos que podem não significar muito, mas que têm sua importância. Ele alterna momentos tristes e divertidos, na medida certa, e pode agradar a maioria dos leitores. Recomendo que leiam e vivam cada capítulo junto com os personagens, para sentir exatamente o que eles sentem e entender os motivos que levaram Mark a tomar a decisão de fugir em busca de um sonho (quase) impossível.

Joana Masen
@joana_masen

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