Joana leu: Ovelha, memórias de um pastor gay, Gustavo Magnani

"Este livro, estreia impressionante de um jovem talentoso escritor, é o relato pecaminoso de um decadente. A história de um homem re...

"Este livro, estreia impressionante de um jovem talentoso escritor, é o relato pecaminoso de um decadente. A história de um homem religioso e carismático, temente a Deus, mas amante insaciável de sua própria carne exótica, a carne de outros homens. Um pastor gay, casado com uma ex-prostituta, filho de uma fanática religiosa. Neurótico e depravado. E agora condenado. Internado no hospital, debilitado e com um segredo de uma tonelada nas costas, este personagem atormentado decide libertar-se de seus demônios e relatar seu drama. Num relato cru e sem censura, ele literalmente vomita seus trinta anos de calvário e charlatanice na cara da congregação (e de qualquer um que se interesse por um bom inferno). Sexo, paranoia, corrupção e destruição são os ingredientes tóxicos dessa obra provocante, polêmica e inovadora."




Esse livro pode ser chocante para algumas pessoas. Mas também pode ser visto por alguns leitores como uma narrativa ousada, mas que não assusta. Claro que o assunto é polêmico: um pastor evangélico que se descobre gay e que narra suas desventuras em busca da satisfação pessoal e a dúvida sobre se o que faz é certo ou errado. Só isso já daria uma boa discussão, mas o autor vai além, e conta em detalhes algumas das situações mais intensas vividas por seu personagem.

O protagonista escancara todos os seus sentimentos mais íntimos, enquanto questiona o posicionamento da igreja frente a natureza humana, ao ser diferente e tentar ser aceito sem transgredir suas regras. O próprio autor em algumas entrevistas revelou que passou um longo período de sua vida dentro da igreja, bastante atuante, até que começou a perceber que, em alguns casos, a única coisa que importava para a instituição igreja era que o fiel seguisse suas ordens, agisse sob seus termos, e anulasse sua verdadeira identidade para viver de acordo com o que a igreja prega. Foi que ele passou a questionar se isso era certo.

É possível identificar no personagem essa insatisfação com a igreja, e uma tentativa de alinhar aquilo que ele acredita, ou seja, sua fé em Deus, com aquilo que ele precisa fazer, que é assumir seus desejos mais primitivos, e só assim ser totalmente feliz. Esse medo de estar vivendo em pecado enquanto sente que está se satisfazendo plenamente martiriza o pastor o tempo todo, e faz com que ele questione suas próprias escolhas. Mas também não o impede de buscar o prazer a qualquer preço.

Mas certamente o que vai chocar o leitor são os detalhes mínimos da vida sexual do pastor: desde o descobrimento da sua homossexualidade até a primeira vez que ele tem uma relação com outro homem. Ele também fala sobre as dificuldades em manter um relacionamento com a esposa, sem que ela perceba que ele é gay. Com ela o pastor teve filhos e passou alguns anos tentando viver como manda a sociedade, mas como não conseguia fugir de sua natureza homossexual, ele mantinha casos extraconjugais.

O ponto forte do livro é sem dúvida o estilo narrativo adotado pelo autor: ele escreve no estilo diário, fazendo registros sem uma linha temporal definida, ou seja, hora ele usa o tempo presente, falando sobre como está o pastor naquele exato momento em que escreve suas memórias, sentindo que seus dias estão chegando ao fim, hora ele afla no passado, contando coisas que já aconteceram, desde a sua infância até agora. Intercalando os tempos, aparentemente sem critério algum, o autor conseguiu construir sua própria linha temporal, amarrando  um capítulo no outro, de forma que eles façam sentido entre si e que a estória vá se desenvolvendo até o que seria o fim da linha para o pastor.

Por ser um livro de estreia, ele merece respeito. A narrativa é inteligente e dá para perceber que o autor teve grande cuidado ao conceber essa obra. A polêmica maior fica por conta de quem segue uma religião e pode discordar das atitudes do pastor, o que não é o meu caso. Talvez por isso eu tenha conseguido enxergar a estória com o olhar de um leitor, e não de um membro atuante desse ou daquele seguimento religioso. Cada leitor vai perceber a estória de uma perspectiva própria, e por isso é recomendado que todos o leiam, independente da sua crença, e que tenham a mente aberta, sabendo que se trata de uma obra literária.





Ovelha, memórias de um pastor gay
Gustavo Magnani
editora Geração Editorial
232 páginas
Joana Masen
@joana_masen

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