sábado, 17 de fevereiro de 2018

Lady Bird é o filme que queria ver no Oscar

Lady Bird é o filme que queria ver no Oscar
Possivelmente a primeira coisa que passa pela nossa cabeça quando falamos em cinema são histórias fantásticas, talvez de super-heróis e coisas extraordinárias. Se o assunto for indicados ao Oscar, nossa imaginação fica ainda mais pronta pra falar de grandes produções, roteiros fortes e projetos cheios de ambição. É claro que isso tudo faz parte desse universo, mas pode ser que a gente acabe esquecendo que o cinema também o espaço pra contar histórias comuns, de gente como eu e você. Esse foi o encantamento que senti quando assisti Lady Bird. De que aquela era uma história que misturava algo que gostaria de ter sido com algo que eu também era na minha adolescência.


Esse é um filmes indicado a Melhor Filme no Oscar desse ano, que nos conta a história de Lady Bird, uma adolescente que vive em Sacramento, Califórnia - e que têm uma vontade enorme de conquistar o mundo. Estamos falando daquela fase de descobertas, que a gente não sabe muito bem o que quer da vida e que estamos prontos pra colocar todos os nossos planos em prática, já que dentro da nossa cabeça o mundo está ali só esperando pra ser conquistado, mesmo que isso nos dê um medo danado. O mais lindo da coisa toda, é que esse é filme criado por mulheres, retratando a vida de uma garota. Quantas vezes vimos isso acontecer no cinema? Um longa falando de uma vida comum, sem intrigas, dramas femininos e garotas brigando por causa de garotos, conversando com meninas como nós.


Em muitos momentos eu senti uma identificação enorme com ela, pensando nos meus anos de adolescente. Eu entendia as motivações dela em querer mudar de vida, de querer conhecer o mundo. Das dificuldades financeiras, de não entender o seu lugar e o seu papel na sociedade. De questionar nossas crenças, do desajuste nas relações familiares dessa fase. Das amizades entre meninas e da incógnita entre meninos. Do peso das escolhas por não entender exatamente o que elas significam.

A verdade é que não há um grande plot por trás de Lady Bird e essa é a maior conquista o filme tem a nos oferecer. Eu acho que de alguma forma a gente pensou que não fosse permitido contar as nossas histórias, a menos que houvesse um contexto de dor, sofrimento ou superação. Afinal, é assim que é ser mulher nesse mundo: difícil. Porque até então nós nunca pudemos falar sobre o ordinário, como se a vida por si só já não fosse obstáculo suficiente e complicada pra caramba partindo apenas do básico, mesmo. Quando a gente aprendeu que histórias de mulheres deveriam ser contadas, tudo o que queríamos transmitir era a ideia de que olha, apesar de tudo isso que essa mulher viveu, ela venceu, com o intuito de inspirarmos umas as outras. E sabe, isso é muito importante, de verdade, mas a gente esqueceu todas as histórias merecem ser contadas.

Greta Gerwing e Saiorse Ronan (de quem tenho orgulho em saber pronunciar o nome) trabalhando juntas no set

Greta Gerwing, a diretora e roteirista do filme, passou anos trabalhando nessa história enquanto trabalhava em outras produções tão importantes quanto, seja atuando ou colaborando com roteiro e outros projetos por trás das câmeras. Por causa disso, ela consegue nos transmitir algo tão genuíno, tão verdadeiro, tão a gente em alguma fase da nossa vida, que não consigo apontar um momento em que pensei não estar vendo algo real. De certa forma, estamos vendo uma mulher falar sobre a vida dela também, de um ponto de vista que talvez só a gente entenda como é.

Exatamente por isso que é tão incrível ver a produção em categorias importantes no Oscar desse ano - com indicações para Melhor Filme, Roteiro Original, Atriz, Atriz Coadjuvante, Direção - em que Greta é a quinta mulher a ser indicada na categoria desde a primeira edição. Não que seja esperado que o longa vença, mas o reconhecimento da premiação mais importante do cinema é a grande conquista, que abre portas e traz a oportunidade de que histórias como essa continuem a ser contadas. E por tudo isso, Lady Bird era o filme que queria ver no Oscar.


Sandy Quintans
@sandyquintans

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

6 coisas que amo em Dublin

6 coisas que amo em Dublin
No fim do mês passado, completei um ano que estou aqui em Dublin. Parece que o tempo passou voando, porque ainda lembro bem do dia em que escrevi o texto contando da minha aventura aqui pra Irlanda. Apesar das dificuldades de viver longe do meu país, eu aprendi a ter uma vida muito mais simples e aproveitar mais o meu tempo livre e apreciar as pequenas coisas do meu dia. Tenho certeza que muito dos hábitos que adquiri aqui vou acabar levando de alguma forma comigo por onde eu for daqui em diante.

They're always there

Foi pensando nesse meu tempo aqui, que resolvi fazer uma lista das coisas que mais gosto nessa cidade, que é cinza, fria, mas que tem dezenas de coisas que adoro. Além de fazer um balanço, também é uma forma de vocês conhecerem e, quem sabe, se animarem a colocar essa Dublin no roteiro - ainda que há muito mais a oferecer que essa lista dependendo do seu estilo de vida e coisas que goste de fazer.

1. Parques - Sempre fui a pessoa que arrumou uma desculpa pra ir a um parque e ficar um pouco mais perto das árvores, não importa aonde eu estivesse. Quando cheguei aqui, percebi que Dublin talvez seja um lugar ideal pra alguém que, assim como eu, adora tirar um tempinho livre pra apreciar a natureza. Os irlandeses mantêm parques e áreas verdes espalhados por toda cidade e praticamente todos os bairros possuem espaços como esse para a comunidade local. Eu tive a sorte de morar próximo ao Saint Anne's Park, que é um dos lugares mais lindos que conheço na cidade, inclusive falei dele aqui neste post.

Safe places


2. Mix de culturas - Uma das maiores maravilhas em estar em Dublin é com certeza o mix louco de gente de todo o mundo. Isso é uma coisa que faz a gente se sentir meio que em casa, se pararmos pra pensar no quanto o Brasil é multicultural. O meu namorado sempre fala que tem horas que ele se sente no final de filme de desastre natural, quando o mundo é salvo e pessoas de todas as culturas estão bem, celebrando e compartilhando o mesmo ambiente. O bom disso tudo, é que é possível conhecer mercados, restaurantes, pubs e um monte de outras coisas de vários lugares do mundo sem precisar sair de Dublin.

3. Vida cultural - Dublin é um lugar histórico e, por isso, há dezenas de coisas espalhadas pela cidade que nos faz pensar em diversas fases que esse lugar já passou. Também há uma variedade de museus, monumentos, pubs e castelos em todo o lugar pra gente conhecer. Mas não é apenas de passado que a cidade vive, há uma diversidade de eventos acontecendo em todas as épocas do ano, de festivais, shows, apresentações, peças de teatro e premiações. Pra quem gosta de cultura, aqui é um lugar repleto de programas para todos os gostos.

Reflection of time

4. Vida simples - Se a gente parar pra comparar a vida que os europeus levam aqui com a dos brasileiros, a primeira coisa que vamos descobrir é que aqui o estilo de vida é muito mais tranquilo. Com empregos simples e sem precisar trabalhar um milhão de horas é possível viver confortavelmente e com acesso a muitas coisas que pra gente seria necessário investir uma boa grana. Eu diria que aqui as coisas são um pouco mais justas. Sem contar que o julgamento de terceiros é muito menor, a gente pode vestir o que quiser, pedalar pra todo lugar e nunca mais pensar em carro de novo, porque nada disso realmente importa por aqui.

5. Músicos de rua -  O meu primeiro contato com Dublin na minha vida foi com o filme Once, lançado lá em 2008 e que falava um pouco sobre os buskers, como eles são chamados. Por causa disso, eu tinha no meu imaginário essa prática dos músicos de rua e que conforme foi passando o tempo aqui, eu fui me apaixonando cada vez mais. É inimaginável o talento das pessoas que tocam pelas ruas Dublin e tem algumas pessoas que a gente acaba se apegando e parando sempre que encontra. É como se a vida sempre tivesse uma trilha sonora por aqui. 

More woods ahead

6. Natureza - Eu posto tantas fotos de natureza no meu instagram que as pessoas devem achar que eu vivo no mato por aqui - o que não posso negar, eu amaria muito poder passar mais tempo assim. Além dos parques, há uma diversidade de lugares muito acessíveis pra conhecer nos arredores da cidade, que envolve diversos tipos de paisagens, de praia às montanhas, florestas e trilhas de diversos níveis de dificuldade pra se aventurar.

PS: Como vocês bem devem saber, todas as imagens são do Vinícius Novaes, registrador oficial do nosso intercâmbio.  

Sandy Quintans
@sandyquintans


domingo, 4 de fevereiro de 2018

Uma história de amor que envolve a trilha sonora de Quase Famosos

Uma história de amor que envolve a trilha sonora de Quase Famosos
Esses dias estava lembrando de uma coluna que eu tinha no blog Backbeat, da minha amiga Izadora Pimenta, em que falava de trilhas sonoras maravilhosas (segundo o meu próprio conceito de maravilha, né). Naquela época tava no comecinho da faculdade de jornalismo e procurava formas de praticar a escrita, quando soube que a Iza queria colaboradores pra falar de música. Fiquei quase uma semana pensando no que poderia fazer - que misturasse algo que eu tivesse afinidade, mas que também fosse diferente do que eu já escrevia aqui - quando surgiu a ideia de falar sobre trilhas sonoras. Uma das coisas mais legais desse projeto é que eu pude criar alguns dos textos que são os meu preferidos e dos quais eu me orgulho de ter produzido. Foi relembrando dessas coisas que me dei conta de nunca escrevi nada sobre umas das minhas trilhas favoritas, que é Quase Famosos. Então, sim, esse texto vem cheio de nostalgia, pode apostar.


Eu demorei alguns anos pra assisti-lo e lembro que foi bem numa fase minha de ficar explorando a locadora de cabo a rabo tentando ver de tudo e querendo recuperar o tempo que passei não existindo. Quando terminei de ver minha cabeça estava fervendo, de um jeito bom, e senti que eu nunca mais seria a mesma. (É claro que isso é um completo exagero, mas sim, foi transformador). A parte mais curiosa é que apesar de ser um filme muito conhecido e ter um bando de  fãs mundo afora, é também pouco reconhecido pelo grande público e sempre que converso com alguém sobre, boa parte olha pra mim com cara de desculpa, mas não sei do que você está falando. E tudo bem.


Então pra você que também não sabe do que estou falando, vamos trazer um rápido resumo deste clássico saído do início deste século: o filme conta a história de William Miller, um adolescente de 15 anos, que tem a ambição de ser um jornalista especializado em música e ganha uma estranha oportunidade de acompanhar a turnê de uma banda em ascensão. Tudo isso em plena década de 1970, naquela construção do rock n' roll que a gente escuta até hoje. Agora um fato curioso sobre a história, é que o roteiro é um híbrido de realidade com ficção, porque foi baseado na vida do diretor do filme, Cameron Crowe - que também é responsável por Say Anything, Elizabethtown e Jerry Maguire. Ele também começou a escrever com 15 anos sobre música, acompanhou turnês de bandas incríveis, como o Led Zeppelin e é colaborador da Rolling Stone até hoje.


É por isso também que a trilha sonora é um personagem indissociável da história. Se eu pudesse resumir a beleza dos dois universos nesse filme, da música e do cinema, eu diria que é em uma das primeiras cenas, em que a irmã do William está tendo uma discussão com a mãe deles - uma mulher conservadora e que luta pra criar os filhos sozinha -, quando resolve que vai sair de casa pra viver com o namorado. E sabendo que a mãe deles nunca iria entendê-la, ela coloca pra tocar America, de Simon & Garfunkel, para explicar sua decisão. Eu já ouvia Simon & Garfunkel nessa fase da minha vida, mas depois disso eu fiquei obcecada, principalmente por America que é uma músicas mais bonitas do universo pra mim.


Descontente em ter apenas um momento icônico no filme, Cameron Crowe ainda cria a famosa cena do ônibus, que eternizou Tiny Dancer, de Elton John. Depois de um momento de desentendimento da banda, naquela turnê louca que estamos acompanhando, eles retomam a estrada no meio daquele clima pesado. Até que Tiny Dancer começa a tocar e pra eles aquela é uma música que não dá pra ignorar. Quando chega no refrão, todo mundo já foi contagiado e cantam juntos, deixando os problemas de lado por algo que todos têm em comum naquele momento. Eu aposto que você conhece a mágica que é cantar junto com alguém ao mesmo tempo. 


Mas não é só de Elton John e Simon & Garfunkel que a trilha sonora é composta (embora pudesse com tranquilidade, já que Cameron Crowe é mestre em tirar um Elton John da cartola sempre que necessário em seus filmes). Como dá pra imaginar tem muita coisa boa e que é cara da década de 1970 e da nossa concepção romântica do que é o rock. Como Led Zeppelin - principalmente o lado mais countryzinho que eu adoro -, The Who, Lynyrd Skynyrd, The Velvet Underground, Black Sabbath, Deep Purple, Jimi Hendrix, Iggy Pop. Também tem espaço pra rainha Joni Mitchel, Rod Stewart, Neil Young e outras milhares de coisas que poderia ficar descrevendo aqui até amanhã. Tudo isso, sem contar a banda fictícia que a gente acompanha no filme, Stillwater, que tem músicas muito boas e já até ouvi tocando por aí. Por isso, vou deixar o play aqui pra você acompanhar:



No final, eu acho que a beleza de Quase Famosos não está apenas na temática, no roteiro interessante ou no rock n' roll (ou a oportunidade perfeita pra exaltar toda a beleza de Kate Hudson), mas também por ser um filme sobre viagem, descobertas e desilusões. É também uma daquelas histórias cheias de camadas, que a cada vez que você assiste novamente descobre uma coisa diferente, um lado novo. E eu acho que conforme os anos passam, o roteiro conversa com uma parte nova da gente e a cada vez acontece uma identificação com um personagem. Deve ser por isso que ele é sempre citado entre as minhas listas de filmes favoritos e a trilha sonora é frequente alternativa pra quando estou em busca de inspiração e quentinho no coração.



Sandy Quintans
@sandyquintans
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